domingo, 12 de abril de 2015

A EDUCAÇÃO QUE TEMOS ROUBA DOS JOVENS A CONSCIÊNCIA, O TEMPO E A VIDA

Fonte: http://estaremsi.com.br/a-educacao-que-temos-rouba-dos-jovens-a-consciencia-o-tempo-e-a-vida/

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Quando ouvimos este psiquiatra chileno de 75 anos, temos a sensação de estarmos diante de Jean-Jacques Rousseau do nosso tempo. Ele nos conta que esteve bastante adormecido até os anos 60, quando se mudou para os EUA, se tornou discípulo de Fritz Perls, um dos grandes terapeutas do século XX, e passou a integrar a equipe de terapeutas do Instituto Esalen da Califórnia. A partir deste momento passou a ter profundas experiências no mundo terapêutico e espiritual. Entrou em contato com o Sufismo e tornou-se um dos introdutores do Eneagrama no Ocidente. Ele também bebeu do budismo tibetano e do zen.
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Claudio Naranjo tem dedicado sua vida à pesquisa e ao ensino em universidades como Harvard e Berkeley. Fundou o programa SAT, uma integração de Gestalt-terapia, o Eneagrama e Meditação para enriquecer a formação de terapeutas  professores. Neste momento, lança um alerta contundente: ou mudamos a educação ou o mundo vai afundar.
- Você diz que para mudar o mundo é preciso mudar a educação. Qual é o problema da educação e qual é a sua proposta?
- O problema da educação não é de forma alguma o que os educadores pensam que é. Acreditam que os alunos não querem mais o que eles tem a oferecer. Aos alunos vão querer forçar uma educação irrelevante e estes se defendem com distúrbios de atenção e com a desmotivação. Eu acho que a educação não está a serviço da evolução humana, mas sim a produção ou socialização. Esta educação serve para adestrar as pessoas de geração em geração, a fim de continuar a ser mais um manipulado pelos cordeiros da mídia. Este é um grande mal social. Você quer usar a educação como uma maneira de embutir na mente das pessoas uma maneira de ver as coisas que irá atender ao sistema e a burocracia. Nossa maior necessidade é evoluir na educação, para que as pessoas sejam o que elas poderiam ser.
A crise da educação não é uma crise entre as muitas crises que temos, uma vez que a educação é o cerne do problema. O mundo está em uma profunda crise porque não temos uma educação para a consciência. Nós temos uma educação de uma forma que está roubando as pessoas de sua consciência, seu tempo e sua vida.
O modelo de desenvolvimento econômico de hoje tem ofuscado o desenvolvimento da pessoa.
- Como seria uma educação para a qual sejamos seres completos?
- A educação ensina as pessoas a passar por exames, não em pensar por si mesmas. É um exame que não se mede a compreensão, mede-se então a capacidade de repetir. É ridículo, se perde uma grande quantidade de energia! Ao invés de uma educação para a informação, precisamos de uma educação que aborde o aspecto emocional e uma educação da mente profunda. Para mim parece que estamos presos entre uma alternativa idiota, que é a educação secular e uma educação autoritária que é a educação religiosa tradicional. Está tudo bem separar o Estado e a Igreja mas, por exemplo, a Espanha, tem descartado o espírito, como se religião e espírito fossem a mesma coisa. Precisamos que a educação também atenda à mente profunda
- Quando você fala sobre a espiritualidade e a mente profunda o que quer dizer exatamente?
Tem a ver com a própria consciência. Tem a ver com essa parte da mente da qual depende o sentido da vida. Se está educando as pessoas sem este sentido. Tampouco é uma educação de valores, porque a educação de valores é demasiadamente retórica e intelectual. Os valores deveriam ser cultivados através de um processo de transformação pessoal e esta transformação está longe da educação atual.
A educação deve também incluir um aspecto terapêutico. O desenvolvimento pessoal não pode ser separado do crescimento emocional. Os jovens estão muito danificados afetiva e emocionalmente pelo fato de que o mercado de trabalho esta absorvendo os pais que não têm mais disponibilidade para os filhos. Há muita carência amorosa e muitos desequilíbrios nas crianças. Não pode aprender intelectualmente uma pessoa que está emocionalmente danificado.
O lado terapêutico tem muito a ver com resgatar na pessoa a liberdade, a espontaneidade e a capacidade de satisfazer seus próprios desejos. O mundo civilizado é um mundo domesticado e tanto a formação como a criança são instrumentos desta domesticação. Temos uma civilização doente que os artistas perceberam há muito tempo e agora cada vez mais pensadores, percebem também.
-A educação parece interessada apenas em desenvolver as pessoas racionais. Que outras partes mais poderiam ser desenvolvidas?
-Eu coloco ênfase de que somos seres com três cérebros: temos cabeça (cérebro intelectual), coração (cérebro emocional) e intestino (cérebro visceral ou instintivo). A civilização está intimamente ligada à tomada do poder pelo cérebro racional. No momento em que os homens predominaram no controle político, cerca de 6000 anos atrás, se instaura o que chamamos de civilização. E não é só o domínio masculino e nem só o domínio da razão, mas também a razão instrumental e prática, que se associa com a tecnologia;  é este predomínio da razão instrumental sob o afeto e a sabedoria instintiva que nos tem empobrecidos. A plenitude só pode viver em uma pessoa que tem os três cérebros ordenados e coordenados. Deste meu ponto de vista, precisamos de uma educação para os seres com três cérebros. Uma educação que poderia ser chamada de holística ou integral. Se vamos educar a pessoa como um todo, devemos ter em mente que a pessoa não é apenas razão.
Ao sistema convém que cada pessoa não esteja em contato consigo mesma e nem que pense por si mesma. Por mais que se levante a bandeira da democracia, ela tem muito medo que as pessoas tenham uma voz e estejam conscientes. A classe política não está disposta a investir em educação.
- A educação nos faz mergulhar em um mar de conceitos que nos separam da realidade e nos aprisiona em nossa própria mente. Como se pode sair desta prisão?
Esta é uma grande questão e é uma questão necessária no mundo educacional. A ideia de que o conceitual é uma prisão requer uma certa experiência de que a vida é mais que isto. Para quem já tem interesse em sair da prisão intelectual, é muito importante ter disciplina para parar a mente, ter a disciplina do silêncio, como praticado em todas as tradições espirituais: cristianismo, budismo, yoga, xamanismo… Parar os diálogos internos em todas as tradições do desenvolvimento humano tem sido visto como algo muito importante. A pessoa precisa se alimentar de coisas a mais do que conceitos. A educação quer aprisionar a pessoa em um lugar onde ela é submetida a uma educação conceitual forçada, como se não houvesse outra coisa na vida. É muito importante, por exemplo, a beleza… A capacidade de reverência, admiração, veneração, de devoção. Isto não tem a ver necessariamente com uma religião ou um sistema de crenças. É uma parte importante da vida interior que está se perdendo, da mesma forma que estão perdendo belas áreas da superfície da Terra, a medida que se constrói e se urbaniza.
- Precisamente quero saber sua opinião sobre a crise ecológica que vivemos.
Ela é uma crise muito evidente, é a ameaça mais tangível de todas. Você pode facilmente prever que, com o aquecimento global, com o envenenamento dos oceanos e outros desastres que estão acontecendo, muitas pessoas não poderão sobreviver.
Estamos vivendo graças ao petróleo e consumimos mais recursos do que a terra produz. É uma contagem regressiva. Quando ficarmos sem o combustível, será um desastre para o mundo tecnológico que temos.
As pessoas que chamamos primitivas como os índios têm uma maneira de tratar a natureza que não vem do sentido utilitário. Na ecologia, na economia e em outras coisas, temos dispensado a consciência e trabalhado apenas com argumentos racionais que estão nos levando ao desastre. A crise ecológica só pode ser interrompida com uma mudança pelo coração, com a verdadeira transformação que só um processo educativo pode dar. Com isto, eu não tenho muita fé nas terapias ou religiões. Só uma educação holística poderia evitar a deterioração da mente e do planeta.
- Poderiamos dizer que você encontrou um equilíbrio em sua vida nesse momento?
-Eu diria que mais e mais, apesar de eu não ter terminado a jornada. Eu sou uma pessoa com muita satisfação, a satisfação de ajudar o mundo que estou. Vivo feliz, se é que se pode ser feliz nesta situação trágica em que todos nós estamos.
-A partir de sua experiência, da sua carreira e sua maturidade, como você processa a questão da morte?
-Em todas as tradições espirituais são aconselhados a viver com a morte ao lado. Você tem que chegar a essa evidência de que somos mortais e que levar a morte a sério não será tão vaidoso. Não tens tanto medo das coisas pequenas, quando tens uma coisa grande que te preocupas mais. Acredito que a morte só é superada para aqueles que de alguma forma morrem antes de morrer. Um tem que morrer para a parte mortal, para a parte que não transcende. Aqueles que tem tempo e suficiente dedicação e que vão suficientemente longe nesta viagem interior, finalmente encontram seu verdadeiro eu. E este ser interior ou este ser que é um, é algo que não tem tempo e que dá a uma pessoa uma certa paz ou um sentimento de invulnerabilidade. Estamos tão absortos em nossas vidas diárias, em nossos pensamentos de alegria, tristeza, etc … Nós não estamos em nós, não temos conhecimento de quem somos. Para isso, precisamos estar muito sintonizados com a nossa experiência de tempo. Esta é a condição humana, estamos vivendo no passado e no futuro, é o aspecto horizontal de nossas vidas. Mas desatentos para a dimensão vertical da nossa vida, para o aspecto mais alto e mais profundo, e este é nosso espírito e nosso ser e a chave para o acesso é o aqui e o agora.
Às vezes a gente vai estar em busca do ‘Ser’ e às vezes ficamos confusos em busca de outras coisas menos importantes, como a  glória.

sábado, 11 de abril de 2015

Cultura e dignidade do povo brasileiro

10.4.2015 - 19:40  
      
A criatividade do povo brasileiro é nosso maior patrimônio. Uma das mais importantes demonstrações da força dessa capacidade criativa ainda é desconhecida e ignorada pelo grande público e pela mídia: são dezenas de milhares de grupos culturais espalhados por todo o Brasil, vivenciando a arte e a cultura como instrumentos de qualificação das relações humanas e produzindo vivências de cidadania. São grupos que se organizaram em torno da capoeira, do teatro, da dança, da música, do cinema e do audiovisual, do Hip Hop e de manifestações tradicionais, entre outras, que com essas ações culturais fortalecem um sentimento de pertencimento e senso crítico em relação às mazelas sociais vigentes. A partir dessas atividades, o encantado mundo da cultura e das artes vem fortalecendo a noção de direitos para quem nunca os teve.
Se quisermos definir um território conceitual para essas experiências socioculturais tão diversas entre si, podemos ancorá-las no vasto território da arte-educação. Desde os anos 60, a arte-educação foi incluída como atividade curricular nas escolas brasileiras, mas sabemos como pouco avançamos no uso da cultura e da arte como instrumento pedagógico em nossas instituições de ensino.
Nas últimas décadas, a presença da arte e da cultura foi minguando nas salas de aulas brasileiras, assim empobrecendo o ambiente das nossas escolas. Enquanto isso, nas periferias e bairros pobres das cidades, na área rural, nas aldeias indígenas e nas mais diversas comunidades, a cultura e as artes tornaram-se valiosos instrumentos de inclusão e de qualidade de vida para essas populações. Estamos falando de alegria, sensibilidade e dignidade em meio a pobreza e a violência, luz no fundo do túnel dantesco do cotidiano das massas populares.
Para compensar a ausência do Estado e de suas políticas públicas, comunidades e movimentos sociais têm adotado a cultura como estratégia para a construção de empoderamento e protagonismo, como importante meio de recuperação da autoestima de grupos humanos com acesso restrito a direitos e oportunidades, e como instrumento e coesão social. A sociedade civil vem desenvolvendo essa tecnologia social em meio às dificuldades mais radicais e apesar da indiferença do Estado brasileiro.
Ainda que ocorram nos quatro cantos do Brasil, essas experiências geraram poucos contatos entre si. Mesmo guardando grande diversidade na base conceitual, metodológica e no objeto de trabalho, já são reconhecidas por instituições internacionais como uma tecnologia social poderosa e eficiente. Vários desses projetos já foram convocados para treinar governos de países africanos, e mesmo algumas prefeituras europeias, no trato com populações de rua ou em alguma outra situação de risco.
Essa trajetória vitoriosa foi construída a duras penas pelas comunidades e suas associações, por organizações não governamentais, igrejas - principalmente as pastorais católicas - , sindicatos, militares, intelectuais e artistas orgânicos dos movimentos sociais, mães de santo, mestres de capoeira - ou de alguma outra arte - e empresários mais conscientes. Até o governo Lula, o Estado contribuía muito pouco, como que houvesse renunciado a cumprir sua missão constitucional de formulador e executor de uma política capaz de promover o desenvolvimento cultural da sociedade brasileira.
Apesar de termos atingindo, nos últimos anos, altos índices de universalização de acesso à escola, sabemos que não será possível fundar uma pátria educadora se não incorporarmos a arte e a cultura no processo pedagógico. A missão do Estado na educação não pode se resumir a preparar as novas gerações para o mundo do trabalho. Nos últimos doze anos, apesar de todas as dificuldades, o Estado retomou seu lugar e seu papel na vida cultural brasileira.
Buscamos satisfazer demandas e necessidades da sociedade através de políticas públicas. Tratamos de recolocar a cultura como direito de todos os brasileiros e como política pública estratégica de governo para que o Brasil possa enfrentar os desafios desse início de século XXI. Também como uma economia poderosa, geradora de ocupação e renda.
É nesse contexto que surge o Cultura Viva. Para estimular os processos e as manifestações culturais em todo Brasil. Com esta lei, tornamos de Estado uma política que até então havia sido de governo, reiteramos o reconhecimento de riqueza da cultura, do saber e do fazer produzidos pela sociedade. Cultura como dimensão estruturante de toda a existência humana, acessível a todos.
Indicador de qualidade de vida. A Lei Cultura Viva grava a importância para o desenvolvimento cultural do povo brasileiro de uma gama enorme de experiências, manifestações, projetos e ações que acontecem pelo Brasil afora e que adquiriram significados que vão além do fazer cultural: práticas efetivas, ações, ao mesmo tempo culturais, políticas, sociais e estéticas superam o discurso sobre direitos e deveres. Cultura e dignidade humana como direito de todos os brasileiros, sem limites, nem fronteiras é isso o que representa o Cultura Viva. Viva a cultura e a arte do povo brasileiro.
Juca Ferreira
Ministro da Cultura 
                    

domingo, 5 de abril de 2015

Finlândia: o primeiro país do mundo a abolir a divisão do conteúdo escolar em matérias


Por Canal da Educação março 25, 2015 15:44
Finlândia: o primeiro país do mundo a abolir a divisão do conteúdo escolar em matérias
Por Renato Carvalho, do Rescola
A campainha toca, mas, em vez da aula de História, começa a aula de “Primeira Guerra Mundial”, planejada em conjunto pelos professores especialistas em História, Geografia, Línguas Estrangeiras e (por que não?) pelo professor de Física que achou que seria uma boa oportunidade para trabalhar os conceitos de Balística.
À tarde, outro sinal, mas os alunos não vão ter aula de Biologia. Hoje a aula é sobre “Ecossistema Polar Ártico”, ministrada pelos professores especializados em Biologia, Química, Geografia e o de Matemática, que percebeu que os dados sobre o derretimento das geleiras seriam úteis para o estudo de Estatística.
Em pouco tempo, cenários como esse, que já são comuns nas principais escolas da capital Helsinki, poderão ser encontrados em toda a rede de ensino do município e nas cidades do interior. O objetivo é claro:
A Finlândia quer ser o primeiro país do mundo a abolir completamente a tradicional divisão do conteúdo escolar em “Matérias” e adotar em todas as suas escolas o ensino por “Tópicos” multidisciplinares (ou “Fenômenos”, conforme a terminologia adotada pelos educadores finlandeses).
Há anos, a educação finlandesa vem sendo considerada a melhor do mundo. Com “segredos” como valorização dos professores, atenção especial aos alunos com mais dificuldades, valorização das artes e de diferentes formas de aprendizagem e uma radical redução no número de provas e testes, o país tem consistentemente dividido as mais altas posições nos rankings do PISA (Programme for International Student Assessment, ou Programa para Avaliação Internacional de Estudantes) com Cingapura, mas com as vantagens de oferecer uma educação universalmente gratuita e livre dos tremendos níveis de estresse aos quais os estudantes asiáticos são submetidos.
Apesar dos excelentes resultados (ou talvez por causa deles), a Finlândia pretende continuar repensando e aprimorando seu sistema educacional. “Não é apenas Helsinki, mas toda a Finlândia que irá abraçar a mudança”, afirma Marjo Kyllonen, gerente educacional de Helsinki. “Nós realmente precisamos repensar a educação e reprojetar nosso sistema, para que ele prepare nossas crianças para o futuro com as competências que são necessárias para o hoje e o amanhã. Nós ainda temos escolas ensinando à moda antiga, que foi proveitosa no início dos anos 1900 – mas as necessidades não são mais as mesmas e nós precisamos de algo adequado ao Século 21.”
Naturalmente, a ideia de substituir “Matérias” por “Fenômenos” como forma de dividir o conteúdo escolar e apresentá-lo aos alunos sofreu resistência inicial, principalmente dos professores e diretores que passaram suas vidas se especializando e se preparando para ensinar matérias. Mas com suporte do governo – inclusive incentivos financeiros através de bonificações para os professores que aderissem ao método – os professores foram gradualmente se envolvendo e hoje aproximadamente 70% dos professores das escolas de ensino médio da capital já estão treinados e adotando essa nova abordagem.
Atualmente, as escolas finlandesas já são obrigadas a oferecer ao menos um período de ensino multidisciplinar baseado em Fenômenos por ano. Na capital Helsinki, a reforma está sendo conduzida de forma mais acelerada, com as escolas sendo encorajadas a oferecer dois períodos. A previsão de Marjo Kyllonen é de que em 2020 a transição estará completa em todas as escolas do país.
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Para além do ‘na Finlândia é fácil, quero ver no Brasil’

Por Canal da Educação março 27, 2015 01:19
Para além do ‘na Finlândia é fácil, quero ver no Brasil’
Notícia de que país nórdico quer acabar com disciplinas traz desconfiança, mas também deixa pulga atrás da orelha: ‘será que dá?’
Por Patrícia Gomes, no Porvir
No meu feed de notícias do Facebook nesta semana uma aspa em particular me chamou a atenção. Uma educadora dizia: “Existem escolas que estão ensinando do jeito tradicional, o que até era uma coisa vantajosa no início dos anos 1900. Mas agora não podemos mais fazer isso. Precisamos de algo compatível com o século 21”.
OK, preocupação justa, honesta, que a gente tem visto com alguma frequência no Brasil, principalmente entre pessoas empenhadas em melhorar a educação pública. Mas espera. Quem disse não foi alguém que está tentando repensar algum sistema educacional cambaleante. Era Marjo Kyllonen, secretária de educação de Helsinque, ao comentar no britânico The Independent a grande notícia da semana para quem se interessa por educação: a Finlândia vai, a partir de 2016, começar a trocar as disciplinas tradicionais por projetos interdisciplinares (leia entrevista com Marjo Kyllonen no Porvir). Segundo ela, escolas finlandesas precisam preparar melhor os alunos para os desafios que encontrarão na vida.
Então quer dizer que a Finlândia, que já tem um dos melhores sistemas educacionais do mundo, também está procurando novas soluções para suas salas de aula? Sim, está. Só para dar um contexto melhor sobre o que estamos falando: a Finlândia é dos países que mais consistentemente aparecem no topo do Pisa, exame internacional que mede o quanto alunos de 15 anos sabem matemática, ciências e língua materna. Lá, a educação é pública, não há grandes diferenças na qualidade do ensino entre escolas e os professores têm autonomia para escolher o que vão ensinar.
Aliás, lecionar é um dos ofícios mais prestigiados no país – Pasi Sahlberg, educador finlandês, professor visitante de Harvard e autor do livro “Finnish Lessons 2.0”, fala mais sobre o que é ser professor na Finlândia em seu blog. O resultado dessa mistura é um país que tem se destacado nas áreas de tecnologia e inovação, tem uma economia sólida e os menores índices de corrupção do planeta.
Bom, acontece que aqui pelos Estados Unidos a notícia também ganhou repercussão. Depois da matéria inicial do The Independent, publicações como Quartz, Washington Post, Huffington Post e Vox puseram suas respectivas colheres na discussão, uns com mais, outros com menos pé atrás. “Será que substituir aulas tradicionais por projetos interdisciplinares vai ensinar ao aluno tudo o que ele precisa saber? Será que essa abordagem é possível nos EUA?” foram algumas das questões levantadas. Para dar um contexto, os norte-americanos estão na fase final de implementação do Common Core, um currículo nacional para matemática e inglês fruto de um debate que durou anos, e aguardam ansiosos pelos primeiros resultados dos alunos.
O problema é que as notícias davam a entender que a Finlândia ia trocar todas as disciplinas por projetos de um dia para o outro. Mas não é bem assim e o Ministério da Educação finlandês fez questão de esclarecer isso. Mesmo antes de a substituição aulas tradicionais por projetos interdiciplinares fazer parte de um programa maior, o país já adotava a abordagem de projetos há décadas ao menos uma vez por semana. A partir de 2016, um cronograma de adoção vai ser adotado para que essa quantidade aumente, mas as disciplinas continuarão a existir.
Pelo aprendizado baseado em projetos, professores de diferentes disciplinas desenham juntos atividades com claros objetivos pedagógicos e as situações de aprendizado ocorrem ao longo do processo. Entre ter a ideia, desenhar, prototipar e apresentar o produto final, os alunos aprendem os conteúdos programáticos relacionados e intencionalmente abordados pelos professores, mas também têm que agir em colaboração, com criatividade e resiliência.
É claro que ter uma grade curricular inteiramente baseada em projetos é algo muito distante da realidade brasileira. Mas a adoção parcial, quem sabe em um dia na semana, pode ser um começo. Paulo Blikstein, professor assistente em Stanford e estudioso do aprendizado baseado em projetos, me disse há um tempo e eu nunca esqueci: não tem mal nenhum em abrir mão de um pouco de conteúdo para dar espaço a momentos de aprendizagem realmente profundos. Na vida real, é isso que vai fazer diferença. Fiquemos com a pulga atrás da orelha.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Livro relata evolução do coletivo Fora do Eixo, na cultura e na política


Em 'Os Novos Bárbaros – A Aventura Política do Fora do Eixo', Rodrigo Savazoni descreve trajetória da rede de coletivos culturais e de ativismo político-digital que tem se destacado nos últimos anos
por Redação RBA publicado 02/12/2014 09:45
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Reprodução
roda viva
Capilé e Bruno Torturra, do coletivo, em entrevista ao 'Roda Viva' após manifestações de 2013
Poucos dias depois de Pablo Capilé e Bruno Torturra serem entrevistados no programa Roda Viva, da TV Cultura, o jornalista, escritor e pesquisador Rodrigo Savazoni terminava de escrever o livro Os Novos Bárbaros – A Aventura Política do Fora do Eixo (Editora Aeroplano, 264 págs.), sobre a trajetória deste fenômeno político-cultural. Resultado de sua tese de mestrado na Universidade Federal do ABC, o livro será lançado nesta terça-feira (2), às 18h na Praça Rooselvet, em São Paulo, e na quarta-feira (3), na livraria Blooks, no bairro carioca de Botafogo.
Colaborador da Rede Brasil Atual e da Revista do Brasil, Savazoni percorreu o que ele chama de “aventura contemporânea” na tentativa de descrever e compreender o Fora do Eixo (FdE), uma rede de coletivos culturais e de ativismo político-digital que ganhou notoriedade no Brasil nos últimos anos. Ele conta a saga de jovens vindos das periferias e do interior do país que começaram a se organizar em redes e coletivos e acabaram criando novos espaços de participação popular, produção e divulgação de cultura e de informação.
Trata-se de um trabalho de fôlego em que o jornalista resgata desde o ambiente de efervescência no qual se gestou essa espécie de movimento social que tem o “objetivo de organizar jovens ligados aos circuitos culturais”, nas palavras de Pablo Capilé, principal porta-voz do FdE. A política cultural engendrada pelos ministros Gilberto Gil e Juca Ferreira durante o primeiro e o segundo mandato de Lula é um dos pontos de partida do movimento e, portanto, do livro de Savazoni. Não à toa, o prefácio é de Ferreira, com quem o autor trabalhou na Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, “um dos grandes inspiradores desta empreitada”.
“Acredito que o trabalho de Rodrigo expressa uma qualidade que todo trabalho intelectual rigoroso necessita ter: ele não simplifica seu objeto para facilitar sua narrativa. Pelo contrário. A complexidade do Fora do Eixo se apresenta desde o início do texto, e disso o autor nos alerta ao descrever um vídeo em que o próprio coletivo de coletivos afirma ser um vetor de confusão e não de explicação. Rodrigo se dedica a esquadrinhar esse fenômeno, sem se propor a assumir teses prévias sobre ele. Abre assim caminho para que nós mesmos possamos nos arriscar a fazer nossas próprias análises”, resume Juca, no prefácio que intitula "O caminho ao caminhar do Fora do Eixo".
A pesquisadora e curadora do trabalho Heloísa Buarque de Hollanda concorda e assinala que a obra é a primeira pesquisa séria sobre o poder e as contradições do revolucionário horizonte político e cultural que vem sendo gestado na web. “Do circuito da música aos protestos com novas dicções revolucionárias, o autor examina com cuidado e objetividade o passo a passo da formação do FdE, sua expansão e os debates que suscita na academia, no meio artístico e nas tribos jovens. Uma leitura indispensável para pensar o alcance das políticas e estéticas neste início de milênio”, conclui Heloísa.
Novos BárbarosLançamento
Os Novos Bárbaros – A Aventura Política do Fora do EixoEditora Aeroplano
Quando:
- São Paulo
Terça-feira, 2 de dezembro, às 18h
Praça Roosevelt
- Rio de Janeiro
Quarta-feira, 3 de dezembro, às 19h, na livraria Blooks
Praia de Botafogo, 316
registrado em:

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Os Pontos de Cultura chegam a Roma!!. Encontro de Célio Turino com Papa Francisco.


Por Célio Turino fevereiro 23, 2015 16:27
Encontro com Papa Francisco

Foi inesperado. De repente, uma amiga argentina, Ines Sanguinetti, uma bailarina que dedica sua vida a promover a Cultura Viva Comunitária na periferia de Buenos Ayres, em que “Crear vale la pena”, envia uma mensagem: “estou apresentando-o à Damiana, que trabalhou com o Papa Francisco quando arcebispo e eles gostariam de conhecer mais a ideia dos Pontos de Cultura”. Trocamos algumas mensagens, ela pediu meu currículo sem dizer para que, também enviei meu livro em espanhol, editado na argentina ” Puntos de Cultura – Cultura Viva en movimiento” e ficamos de nos encontrar em abril, quando eu fosse ministrar um curso de gestão cultural em Buenos Ayres. Uma conversa das muitas que realizo com pessoas de diversos países, trocando ideias sobre a Cultura Viva que é realizada pelo mundo afora. 

Uma semana depois, recebo um convite da Academia de Ciências do Vaticano, para ministrar a Conferência de abertura no tema “Cultura, Educação e Emancipação” no Congresso mundial do programa Scholas Occurrentes (Escolas do Encontro) a ser lançado pelo Papa Francisco, com o objetivo de envolver 60 milhões de jovens em todo o mundo. Mais uma semana e eu estava no Vaticano. Tudo muito rápido e bem definido.

Promover encontros pela paz. Não desses encontros retumbantes, com declarações genéricas e pouca ação prática, mas encontros singulares, pessoa a pessoa. Sessenta milhões de crianças e jovens a se encontrarem pelo mundo, um a um, estabelecendo laços de afeto e confiança. Esta é a ideia das Escolas do Encontro. 

Algo assim: colocar um jovem Checheno convivendo com um jovem Russo, dormindo no mesmo quarto, dividindo a mesma comida e um tendo que lavar a roupa do outro, como na vila de Rondini, na Itália, em que jovens de países conflagrados são convidados a viver juntos, sob o mesmo teto. E, de repente, um jovem israelense declara que nunca havia conversado com um palestino antes de dividir o quarto com um, e eles se descobrem amigos. Potenciar o encontro, praticar a alteridade (o se reconhecer no “outro” por mais diferente que este “outro” possa parecer), exercitar a tolerância e a paz, esta é a ideia do Scholas Occurrentes.

O Ponto de Cultura pode fazer esta mediação. Aqui não me refiro aos Pontos de Cultura instituídos ou reconhecidos por governos, esses também, mas há muito mais Pontos de Cultura espalhados por aí. Gente boa, criativa e dedicada, fazendo trabalho pelo mundo, entregando suas vidas a organizar a Cultura Viva em suas comunidades. 

Pode ser uma biblioteca comunitária, ou uma escola de dança, ou grupo de teatro, de hip hop, coletivo audiovisual, com indígenas, jovens de favelas, camponeses, também estudantes universitários, mestres da Cultura Popular, Griôs, contadores de histórias, palhaços, músicos, gente fazendo ecovilas, agroecologia, cooperativas de economia solidária, trabalhos compartilhados em software livre, cultura digital. Tudo cabe na Cultura Viva, basta querer, inventar e fazer. E promover o encontro.

Há realidades extremadas, como jovens vivendo em áreas de guerra. Mas há também outras realidades em que o Encontro deve ser promovido, em que a guerra não é declarada, mas velada (ou não tão velada assim). Não seria uma boa ideia colocar jovens de um colégio arquidiocesano, de classe média alta, para interagir com jovens de uma escola pública no Capão Redondo, em São Paulo? Mesmo morando na mesma cidade, talvez eles nunca tenham se encontrado, como entre os jovens israelense e palestino. 

Por vezes são escolas que estão ao lado uma da outra, no mesmo bairro ou região, por vezes estes jovens até se cruzam nas ruas, mas nunca se olharam, nunca se ouviram. O jovem da família rica, com acesso a todos os bens de consumo ou conforto, talvez seja até mais excluído de sua cultura, de seu povo, que um jovem que possa morar na favela vizinha. Um, com acesso a shoppings, baladas, cinema multiplex ou roupas de marca, outro, com acesso ao Jongo, à capoeira, às rodas de conversa, saraus de periferia ou grupos de rap. 

Mas eles tem o que conversar e aprender um com o outro. É aí que entra a cultura e o esporte. Não para promover um encontro forçado, como se fosse uma tarefa escolar, em que cada uma dessas crianças e jovens devesse conversar com a outra em algum momento especial ou em encontros pelo computador. Mas em encontros reais, vivenciados cotidianamente.

 Um grupo de capoeira, o exercício de produção de um audiovisual entre jovens de realidades tão distintas, um trabalho comunitário (não para que o mais rico se sinta ajudando o mais pobre, mas para uma ação comum, em que um ajuda e aprende com o outro, cuidando de uma horta comunitária, de comida orgânica, por exemplo). Enfim, há tantas possibilidades, tantas necessidades, tanta gente precisando se encontrar (mesmo quando não sabem).
Cabe aos Pontos de Cultura do mundo a mediação deste encontro.

Foi o que conversei com o Papa Francisco. E que venham os encontros!